Como precificar o cardápio do restaurante sem achismo (e parar de trabalhar de graça)
Triplicar o custo do ingrediente não é precificação — é achismo com sorte. Veja a fórmula que considera custo real, fixos, impostos e lucro desejado, com exemplo prático por segmento.
Carlos tinha um prato campeão de vendas: o filé com fritas. Custava R$ 14 de insumos, vendia por R$ 42 — exatamente o "3x o custo" que ele aprendeu com um tio que teve restaurante nos anos 90.
Resumo em 3 pontos:
- A regra de "3x o custo do ingrediente" ignora custos fixos, impostos e comissão de delivery — e pode te fazer vender no prejuízo
- O preço correto considera custo direto + custos indiretos rateados + impostos + margem de lucro desejada
- O mesmo prato precisa de preço diferente no salão e no delivery — se o preço for igual, você está subsidiando a plataforma
O prato saía 80 vezes por semana. Carlos achava que estava ganhando bem. Estava errado.
Quando ele calculou o custo real do prato — incluindo a parcela do aluguel, a energia da fritadeira, o custo proporcional da equipe, a embalagem do delivery e o imposto sobre a venda — o lucro real era R$ 2,80 por prato. Trabalhando 18 horas por dia para ganhar R$ 224 por semana com o prato mais vendido do bar.
Por que "3x o custo" não é precificação
A regra de triplicar o custo do ingrediente é um atalho que funcionava quando:
- Aluguel era barato e estável
- Não havia delivery com comissão de 27%
- Impostos eram menores
- A equipe era a família, sem carteira assinada
Em 2026, essa regra ignora pelo menos 4 componentes que somam 30 a 50% do preço de venda necessário. Quem usa ela está precificando com margem ilusória.
A fórmula real de precificação
O preço de venda correto precisa cobrir:
Preço mínimo = (Custo direto + Custos indiretos + Impostos) ÷ (1 - Margem de lucro desejada)
Desmembrando cada componente:
1. Custo direto (CMV do prato) Todos os ingredientes que entram no prato, incluindo desperdício médio. Se você compra 1 kg de carne a R$ 38 e usa 180g no prato com 10% de perda no preparo, o custo real é R$ 7,55 — não R$ 6,84.
2. Custos indiretos (rateio) Aluguel, energia, equipe, embalagem — rateados por prato. Para calcular:
Custo indireto por prato = Total de custos fixos mensais ÷ Número de pratos vendidos no mês
3. Impostos MEI paga DAS fixo (mais simples de calcular). Simples Nacional varia de 4% a 12% sobre faturamento. Esse percentual entra no preço.
4. Margem de lucro desejada Não o que "sobra", mas o que você quer que sobre. Para um bar no segmento casual, a meta é 15–20% de margem líquida. Você começa pelo destino, não pelo ponto de partida.
Exemplo prático — Filé com fritas do Carlos
| Componente | Valor |
|---|---|
| Custo direto (insumos) | R$ 14,00 |
| Custo indireto rateado | R$ 7,80 |
| Comissão iFood (22%) | variável |
| Impostos (Simples 6%) | variável |
| Margem desejada (18%) | — |
Resultado para venda no salão:
Preço mínimo salão = (14,00 + 7,80) ÷ (1 - 0,06 - 0,18) = R$ 28,68
Carlos cobrava R$ 42. Aqui há espaço. Mas veja o que acontece no iFood:
Resultado para venda no delivery (comissão 22%):
Preço mínimo delivery = (14,00 + 7,80 + 1,20 embalagem) ÷ (1 - 0,22 - 0,06 - 0,18) = R$ 42,59
Carlos cobrava R$ 42 no delivery também. Estava vendendo no prejuízo cada vez que o prato saía pelo iFood.
Markup por segmento: referência para começar
| Segmento | Markup mínimo (custo direto) | Markup saudável |
|---|---|---|
| Bar / Boteco | 3,2x | 4,0–4,8x |
| Restaurante casual | 3,0x | 3,8–4,5x |
| Marmitaria | 2,8x | 3,5–4,2x |
| Hamburgueria premium | 3,5x | 4,2–5,0x |
| Pizzaria | 3,8x | 4,5–5,5x |
| Cafeteria | 4,0x | 5,0–6,0x |
Atenção: esses números assumem que os custos indiretos e impostos já foram calculados separadamente. O markup aqui é sobre o custo direto do insumo, não sobre o preço final.
Os 4 erros mais comuns de precificação
1. Não revisar o cardápio quando os insumos sobem Inflação de alimentos subiu 44% em 4 anos. Quem não reajustou o cardápio perdeu 3–5% de margem por ano sem perceber.
2. Cobrar o mesmo preço no salão e no delivery Delivery tem custo de embalagem + comissão da plataforma. O mesmo prato precisa de preço diferente por canal — ou você subsidia a plataforma.
3. Esquecer o pró-labore no custo fixo Se você trabalha no negócio e não coloca um salário para si mesmo nos custos fixos, a precificação está errada. Você está trabalhando de graça e chamando de lucro.
4. Precificar pelo concorrente sem conhecer seu próprio custo "O vizinho cobra R$ 38, então eu cobro R$ 35 para ganhar cliente." Você pode estar cobrando abaixo do seu custo mínimo sem saber — porque o vizinho tem um custo de aluguel diferente, uma equipe diferente, um acordo diferente com fornecedor.
Como a Tamy calcula o preço ideal de cada prato
A Tamy calcula o custo real de cada prato com base nos seus lançamentos de compras, no rateio dos seus custos fixos e nas comissões de cada canal. Quando você lança uma nota de fornecedor ou conecta o banco, a Tamy atualiza o custo de cada prato automaticamente.
Se o custo de um ingrediente sobe, a Tamy avisa: "O custo do seu filé aumentou R$ 2,30 esta semana. Seu preço atual está 4% abaixo do mínimo necessário para manter a margem. Quer simular o ajuste?"
Você não precisa refazer planilha. A Tamy recalcula. Você decide se ajusta o preço ou negocia com o fornecedor.
"Eu descobri que estava vendendo frango grelhado no iFood por R$ 3 abaixo do custo. Tirei do cardápio de delivery e minha margem subiu 6% em um mês." — Márcia O., Marmitaria, São Paulo
Perguntas frequentes
Como definir o preço de um prato para delivery?
O preço no delivery deve ser maior que no salão. A fórmula é a mesma — custo direto + custos indiretos + impostos dividido por (1 menos margem desejada) — mas o custo direto agora inclui embalagem (R$ 1,50 a R$ 4,50 por pedido) e a comissão da plataforma (12–27%) entra como percentual a subtrair da margem. Na prática, o preço de delivery precisa ser 15% a 30% maior que o do salão para manter a mesma margem. A Tamy calcula o preço mínimo por canal automaticamente, considerando comissão e embalagem de cada plataforma.
Qual o markup ideal para restaurante?
O markup ideal varia por segmento: bar/boteco 4,0–4,8x sobre o custo direto do insumo; restaurante casual 3,8–4,5x; marmitaria 3,5–4,2x; hamburgueria premium 4,2–5,0x; pizzaria 4,5–5,5x; cafeteria 5,0–6,0x. Esses valores assumem que os custos indiretos e impostos já estão calculados separadamente. Usar "3x o custo" como regra universal é uma armadilha que funcionava nos anos 90, mas não cobre a realidade de 2026 — com delivery, impostos mais complexos e aluguel em alta. Para entender como o CMV afeta seu markup, leia o guia completo.
Como reajustar o preço sem perder cliente?
Existem 4 estratégias que reduzem o impacto de um reajuste: (1) reajustar gradualmente — 5% a 8% por vez, não 20% de uma vez, (2) comunicar o valor antes do preço — "agora com ingredientes premium" ou "porção maior", (3) criar versões do prato — uma premium com mais margem e uma essencial acessível, (4) reajustar junto com uma melhoria visível — nova apresentação, acompanhamento diferente. O segredo é nunca deixar o preço defasado por meses — reajustar a cada 60-90 dias em pequenos incrementos é menos perceptível que um reajuste grande de uma vez.
O preço do delivery deve ser diferente do salão?
Sim, sempre. No delivery você tem custos que não existem no salão: embalagem, comissão da plataforma e mão de obra de empacotamento. Se cobrar o mesmo preço nos dois canais, o lucro do salão subsidia o delivery. A Tamy calcula o preço mínimo separado para cada canal — salão, iFood, Rappi, WhatsApp — e avisa quando um prato está sendo vendido abaixo do custo em algum canal. Veja o exemplo completo em iFood: lucro ou prejuízo?
Como calcular o preço de um prato novo?
Para precificar um prato novo: (1) monte a ficha técnica com todos os ingredientes e quantidades, incluindo 10% de perda média no preparo, (2) some o custo direto dos insumos, (3) divida o total de custos fixos mensais pelo número de pratos vendidos no mês para achar o custo indireto por prato, (4) defina a margem desejada (15–20% para bares, 18–25% para restaurantes casuais), (5) aplique a fórmula: (custo direto + custo indireto) dividido por (1 menos impostos menos margem desejada). Antes de lançar, valide se o preço resultante está compatível com o que seu público aceita pagar — e se não estiver, reveja o custo antes de forçar um preço artificial. Para uma visão completa da gestão financeira, o preço de cada prato deve fazer sentido dentro do resultado geral do negócio.
Devo incluir o pró-labore no cálculo de preço?
Sim, obrigatoriamente. Se você trabalha no negócio e não coloca um salário para si mesmo nos custos fixos, a precificação está errada. Sem pró-labore, o que parece lucro é na verdade a sua remuneração disfarçada — e quando ela acaba, o negócio mostra que nunca foi lucrativo de verdade. Defina um valor de pró-labore compatível com o que um gerente custaria no mercado e inclua nos custos fixos antes de calcular o preço. Isso é fundamental para lucrar de verdade.
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